Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Ângelus’ Category

Ao fim do discurso, Bento XVI pediu o auxílio da Virgem Maria que já participa da Ressurreição

O Papa  Bento XVI rezou, na manhã deste domingo, 10, a oração do Angelus com milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro, no Vaticano. Na alocução que precedeu a oração mariana, o Santo Padre recordou que faltam apenas duas semanas para a Páscoa e as leituras bíblicas de hoje falam todas da Ressurreição. “Não ainda a de Jesus, que irromperá como uma novidade, mas da nossa ressurreição, a que nós aspiramos e que o próprio Cristo nos deu, ressuscitando dos mortos”, explica.

Ao falar sobre o significado da morte e que esta é como um muro que impede dos fiéis verem além, o Pontífice destacou que o coração dos cristãos é capaz de transpor este muro. “Embora não possamos conhecer o que ele esconde, no entanto, pensamos, imaginamos, expressando com símbolos o nosso desejo de eternidade”, ressalta.

Em seguida, Bento XVI recordou que ao povo judeu no exílio, longe da terra de Israel, o profeta Ezequiel anuncia que Deus vai abrir os túmulos dos deportados e os fará retornar à sua terra, para descansar em paz (cf Ez 37:12-14). Esta aspiração ancestral do homem a ser sepultado junto com seus pais é o anseio por uma “pátria” que o acolha no final dos esforços terrenos.

“Este conceito ainda não contém a idéia de uma ressurreição pessoal dos mortos, que só aparece no final do Antigo Testamento e, ainda no tempo de Jesus, não foi aceita por todos os judeus. Além disso, mesmo entre os cristãos, a fé na ressurreição e na vida eterna se acompanha não raramente de tantas dúvidas, tanta confusão, porque se trata de uma realidade que transcende os limites da nossa razão, e requer um ato de fé”, continuou o Santo Padre.

O Santo Padre enfatiza que, no Evangelho deste domingo – o da ressurreição de Lázaro – se lê a voz da fé da boca de Marta, irmã de Lázaro. Jesus que lhe diz: “Teu irmão ressuscitará”, e ela responde: “Eu sei que ele vai ressuscitar no último dia” (Jo 11, 23-24). Ao que Jesus replica: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo se morrer, viverá”.

“É esta a verdadeira novidade, que irrompe e supera todas as barreiras! Cristo abate o muro da morte, n’Ele habita toda a plenitude de Deus, que é vida, vida eterna. Por isso a morte não teve poder sobre Ele. E a ressurreição de Lázaro é sinal do seu pleno domínio sobre a morte física que diante de Deus é como um sono” (cf. Jo 11, 11), acrescenta.

Mas há outra morte, que custou a Cristo a luta mais difícil, – disse o Papa – o próprio preço da cruz: a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a vida de cada homem. Para vencer esta morte Cristo morreu e a sua Ressurreição não é o retorno à vida precedente, mas a abertura de uma nova realidade, uma “nova terra”, finalmente unida novamente com o céu de Deus.

O Pontífice conclui invocando o auxílio da Virgem Maria: “Queridos irmãos, vamos nos dirigir à Virgem Maria, que já está participando desta ressurreição, para nos ajudar a dizer com fé: ‘Sim, ó Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus’ (Jo 11, 27), a descobrir que ele realmente é a nossa salvação”.

Na saudação dirigida aos fiéis poloneses, na respectiva língua, o Santo Padre recordou o aniversário da catástrofe aérea ocorrida nos arredores de Smolensk, na qual morreran o presidente polonês e outras personalidades que se dirigiam a Katyn, para comemorar um dramático episódio da II Guerra Mundial. Bento XVI afirmou aos poloneses que estaria unido em oração especial com toda nação polonesa.

Anúncios

Read Full Post »

O Papa Bento XVI falou sobre o francês São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja – que viveu entre os séculos XV e XVI, época de discussões teológicas sobre predestinação e fortalecimento do calvinismo -, na Catequese desta quarta-feira, 2.

O Pontífice apontou um dos ensinamentos do santo como estrada para a verdadeira obediência:

“Adverte-se bem, lendo o livro sobre o amor de Deus e ainda mais as outras tantas cartas de direção e de amizade espiritual, aquele conhecedor do coração humano que foi São Francisco de Sales. A Santa Giovanna di Chantal escreve: ‘[…] Eis a regra da nossa obediência que vos escrevo em letras maiúsculas: FAZER TUDO POR AMOR, NADA POR FORÇA – AMAR MAIS A OBEDIÊNCIA QUE TEMER A DESOBEDIÊNCIA. Deixo-vos o espírito de liberdade, não enquanto aquele que exclui a obediência, porque essa é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ânsia e o escrúpulo'”, recordou.

O Santo Padre também lembrou que a época atual busca a liberdade, também com violência e inquietudes. Exatamente por isso, não deve escapar a atualidade do grande mestre de espiritualidade e paz que foi São Francisco, “que entrega a seus discípulos o ‘espírito de liberdade’, aquela verdadeira, no cume de um ensinamento fascinante e completo sobre a realidade do amor. […] Recorda que o homem traz inscrita no profundo de si a nostalgia de Deus e que somente n’Ele encontra a verdadeira alegria e a sua realização mais plena”, afirmou o Papa.

Francisco de Sales viveu um drama espiritual e teve grandes dúvidas sobre a própria salvação eterna e a predestinação de Deus a seu respeito. No ápice de sua provação, dirigiu-se à igreja dos Dominicanos, em Paris, abriu o coração e rezou: “Aconteça o que acontecer, Senhor, tu que tens tudo na tua mão, e cujas vias são justiça e verdade; seja o que for que tu tenhas estabelecido para mim…; tu que és sempre justo juiz e Pai misericordioso, eu te amarei, Senhor […], te amarei aqui, ó meu Deus, e esperarei sempre na tua misericórdia, e sempre repetirei o teu louvor… Ó, Senhor Jesus, tu serás sempre a minha esperança e a minha salvação na terra dos vivos”.

“Aos vinte anos, Francisco encontrou a paz na realidade radical e libertadora do amor de Deus: amá-lo sem nunca pedir nada em troca e confiar no amor divino; não questionar mais o que fará Deus comigo: eu o amo simplesmente, independentemente de o quanto me dá ou não me dá”, salientou o Pontífice.

Chamado universal

Na obra Introdução à vida devota (1607), Francisco de Sales destina um convite que poderia parecer, à época, revolucionário: “É o convite a ser completamente de Deus, vivendo em plenitude a presença no mundo e as obrigações do próprio estado. […] Nascia assim aquele apelo aos leigos, aquele cuidado pela consagração das coisas temporais e pela santificação do cotidiano, sobre as quais insistirão o Concílio Vaticano II e a espiritualidade do nosso tempo”, relata o Bispo de Roma.

Bento XVI sublinha que São Francisco tem uma visão do ser humano na qual a “razão” está articulada em torno daquilo que os grandes místicos chamam de “topo”, “ponta” do espírito, “fundo da alma”: “É o ponto em que a razão, percorridos todos os seus graus, ‘fecha os olhos’ e a consciência torna-se totalmente unidade com o amor. […] São Francisco de Sales o resume em uma célebre frase: ‘O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a perfeição do espírito, e a caridade a perfeição do amor'”.

Na obra Tratado do Amor de Deus (1616), Francisco explica que o itnierário rumo a Deus “parte do reconhecimento da natural inclinação, inscrita no coração do homem enquanto pecador, a amar a Deus sobre todas as coisas. […] Um tal Deus atrai a si o homem com vínculos de amor, isto é, de verdadeira liberdade. […] Encontramos no tratado do nosso Santo uma meditação profunda sobre a vontade humana e a descrição do seu fluir, passar, morrer, para viver no completo abandono não somente à vontade de Deus, mas àquilo que a Ele apraz, ao seu ‘bon plaisir‘, ao seu beneplácito”, explica Bento XVI.

São Francisco de Sales

Nasceu em 1567, em uma região francesa de fronteira, e era filho do Senhor de Boisy, antiga e nobre família da Savoia. Viveu entre dois séculos, o XV e o XVI. A sua formação foi muito acurada; em Paris, fez os estudos superiores, dedicando-se também à teologia, e, na Universidade de Pádua, fez os estudos de jurisprudência, como desejava seu pai, e concluiu-os de modo brilhante, com a láurea em utroque iure em direito canônico e direito civil.

Durante a juventude, refletindo sobre o pensamento de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, teve uma crise profunda que o levou a se interrogar sobre a própria salvação eterna e a predestinação de Deus a seu respeito, “sofrendo como verdadeiro drama espiritual as principais questões teológicas do seu tempo. Rezava intensamente, mas a dúvida o atormentou de modo tão forte que, por algumas semanas, chegou a ficar quase que completamente sem comer e dormir”, narrou o Pontífice.

Aos 18 de dezembro de 1593, foi ordenado sacerdote. Em 1602, torna-se Bispo de Genebra, em um período em que a cidade era fortaleza do Calvinismo, tanto que a sede episcopal encontrava-se “exilada” em Annecy.

“É apóstolo, pregador, escritor, homem de ação e de oração; comprometido em realizar os ideais do Concílio de Trento; envolvido na controvérsia e no diálogo com os protestantes, experimentando sempre mais, para além do necessário confronto teológico, a eficácia da relação pessoal e da caridade; encarregado de missões diplomáticas em nível europeu, e de tarefas sociais de mediação e reconciliação. Mas, sobretudo, São Francisco de Sales é guia das almas”, afirma Bento XVI.

Morreu em 1622, aos 55 anos, após uma existência assinalada pela dureza dos tempos e pela fadiga apostólica.

A audiência

O encontro do Bispo de Roma com os fiéis reunidos na Sala Paulo VI aconteceu às 6h30 (horário de Brasília – 10h30 em Roma). O Papa continua uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja, no contexto de Catequeses dedicadas aos padres da Igreja e grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade média.

Ao final da Audiência Geral, o Santo Padre recebeu em visita privada a diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Josette Sheeran, que acaba de regressar de uma missão do organismo na fronteira entre Líbia e Tunísia. Após o encontro, a diretorafalou do interesse e preocupação do Papa com tantas pessoas inocentes afetadas pelos conflitos anquela região e agradeceu a ajuda da Igreja na tarefa de fornecer alimentos a quantos passam fome no mundo.

Na saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Papa salientou:

“sede bem-vindos! São Francisco de Sales lembra que cada ser humano traz inscrita no íntimo de si a nostalgia de Deus. Possais todos dar-vos conta dela e por ela orientar as vossas vidas, pois só em Deus encontrareis a verdadeira alegria e a realização plena. Para tal, dou-vos a minha bênção. Ide em paz!”.

Read Full Post »

Catequese de Bento XVI sobre São João da Cruz

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira – equipe CN Notícias)

 

Queridos irmãos e irmãs,

há duas semanas, apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje, desejo falar de outro importante Santo daquelas terras, amigo espiritual de Santa Teresa, reformador, juntamente com ela, da família religiosa carmelitana: São João da Cruz, proclamado Doutro da Igreja pelo Papa Pio XI, em 1926, e chamado na tradição de Doctor mysticus, “Doutor místico”.

João da Cruz nasceu em 1542, no pequeno vilarejo de Fontiveros, próximo de Ávila, de Vecchia Castiglia, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Alvarez. A família era paupérrima, porque o pai, de nobre origem de Toledo, havia sido expulso de casa e deserdado por ter desposado Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, João, aos nove anos, transferiu-se, com a mãe e o irmão, a Medina del Campo, próximo a Valladolid, centro comercial e cultural. Ali frequentou o Colegio de los Doctrinos, desempenhando alguns humildes serviços para a Igreja-convento da Madalena. Sucessivamente, dadas as suas qualidades humanas e os seus resultados nos estudos, foi admitido primeiro como enfermeiro no Hospital da Conceição, depois no Colégio dos Jesuítas, recém fundado em Medina del Campo: ali, João entrou aos dezoito anos e estudou, por três anos, ciências humanas, retórica e línguas clássicas. Ao final da formação, ele tinha bem clara a sua vocação: a vida religiosa e, entre tantas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No verão de 1563, iniciou o noviciado junto aos Carmelitanos da cidade, assumindo o nome religioso de Matias. No ano seguinte, foi destinado à prestigiada Universidade de Salamanca, onde estudou por um triênio arte e filosofia. Em 1567, foi ordenado sacerdote e retornou a Medina del Campo para celebrar a sua Primeira Missa, circundado pelo afeto dos familiares. Exatamente aqui acontece o primeiro encontro entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi decisivo para ambos: Teresa lhe expôs o seu plano de reforma do Carmelo também no ramo masculino da Ordem e propôs a João para aderi-lo “para maior glória de Deus”; o jovem sacerdote ficou fascinado pelas ideias de Teresa, tanto que se tornou um grande apoiador do projeto. Os dois trabalharam em conjunto alguns meses, partilhando ideais e propostas para inaugurar o mais rápido possível a primeira casa de Carmelitanos Descalços: a abertura acontece em 28 de dezembro de 1568 em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João, formavam essa primeira comunidade masculina reformada outros três companheiros. Ao renovar a sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro adotaram um novo nome: João chamou-se então “da Cruz”, como será depois universalmente conhecido. Ao final de 1572, sob pedido de santa Teresa, torna-se confessor e vigário do Mosteiro da Encarnação de Ávila, do qual a Santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que enriqueceu a ambos. Naquele período, surgem também as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelitana não foi fácil e custou a João também graves sofrimentos. O episódio mais traumático foi, em 1577, o seu rapto e encarceramento no Convento dos Carmelitanos da Antiga Observância de Toledo, após uma injusta acusação. O Santo permanece aprisionado por meses, submetido a privações e constrições físicas e morais. Ali compôs, juntamente a outras poesias, o célebre Cântico espiritual. Finalmente, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1578, consegue fugir de modo aventureiro, abrigando-se no mosteiro das Carmelitanas Descalças da cidade. Santa Teresa e as companheiras reformadas celebraram, com imensa alegria, a sua libertação e, após um breve tempo de recuperação das forças, João foi destinado à Andaluzia, onde passa dez anos em vários conventos, especialmente em Granada. Assume encargos sempre mais importantes na Ordem, até tornar-se Vigário Provincial, e completou a elaboração de seus tratados espirituais. Retornou depois à sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia jurídica. Morou no Carmelo de Segóvia, desenvolvendo o ofício de superior daquela comunidade. Em 1591, foi dispensado de suas responsabilidades e destinado à nova Província religiosa do México. Enquanto preparava-se para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se para um convento solitário próximo a Jaén, onde ficou gravemente doente. João enfrentou com exemplar serenidade e paciência enormes sofrimentos. Morreu na noite entre 13 e 14 de dezembro de 1591, enquanto os coirmãos recitavam o Ofício matutino. Despediu-se deles dizendo: “Hoje vou cantar o Ofício no céu”. Os seus restos mortais foram transladados a Segóvia. Foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726.

João é considerado um dos mais importantes poetas líricos da literatura espanhola. As obras maiores são quatro:Subida ao Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual Chama viva de amor.

No Cântico espiritual, São João apresenta o caminho de purificação da alma, isto é, a progressiva posse alegre de Deus, até que a alma passe a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A Chama viva de amor prossegue nessa perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. A comparação utilizada por João é sempre aquela do fogo: como o fogo quanto mais arde e consome a lenha tanto mais se faz incandescente até tornar-se chama, da mesma forma o Espírito Santo, que durante a noite escura purifica e “pule” a alma, com o tempo a ilumina e a aquece como se fosse uma chama. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade.

Subida ao Monte Carmelo apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar o cume da perfeição cristã, simbolizada pelo cume do Monte Carmelo. Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, colaborando com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para chegar à união com Deus deve ser total, inicia a partir da vida dos sentidos e prossegue naquela que se obtém por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade. A Noite escura descreve o aspecto “passivo”, ou seja, a intervenção de Deus nesse processo de “purificação” da alma. O esforço humano, de fato, é incapaz sozinho de chegar até as raízes profundas das inclinações e dos hábitos cativos da pessoa: pode somente freá-los, mas não erradicá-los completamente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe à união de amor com Ele. São João define “passiva” tal purificação de amor com Ele exatamente porque, embora aceita pela alma, é realizada pela ação misteriosa do Espírito Santo que, como chama de fogo, consome toda a impureza. Nesse estado, a alma é submetida a todo o tipo de provação, como se se encontrasse em uma noite escura.

Essas indicações sobre as obras principais do Santo ajudam-nos a aproximarmo-nos dos pontos salientes da sua vasta e profunda doutrina mística, cujo objetivo é o de descrever um caminho seguro para chegar à santidade, o estado de perfeição a que Deus chama a todos nós. Segundo João da Cruz, tudo aquilo que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, nós podemos chegar à descoberta d’Aquele que, nelas, deixou um traço de si. A fé, porém, é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus assim como Ele é em si mesmo, como Deus Uno e Trino. Tudo aquilo que Deus queria comunicar ao homem, o fez em Jesus Cristo, a sua Palavra feita carne. Jesus Cristo é a única e definitiva via ao Pai (cf. Jo 14,6). Todas as coisas criadas são nada em relação a Deus e nada tem valor fora d’Ele: por consequência, para chegar ao amor perfeito de Deus, todo outro amor deve configurar-se em Cristo ao amor divino. Daqui deriva a insistência de São João da Cruz sobre a necessidade da purificação e do esvaziamento interior para transformar-se em Deus, que é a meta única da perfeição. Essa “purificação” não consiste na simples privação física das coisas ou do seu uso; aquilo que torna a alma pura e livre, ao contrário, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo é colocado em Deus como centro e fim da vida. O longo e cansativo processo de purificação exige certamente o esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo aquilo que o homem pode fazer é “dispor-se”, estar aberto à ação divina e não colocar obstáculos. Vivendo as virtudes teologais, o homem se eleva e dá valor ao próprio empenho. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade anda de mãos dadas com a obra de purificação e com a progressiva união com Deus, até transformar-se n’Ele. Quando se chega a essa meta, a alma emerge na própria vida trinitária, de modo que São João afirma que ela chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele a ama, porque a ama no Espírito Santo. Eis porque o Doutor Místico sustenta que não existe verdadeira união de amor com Deus se não culmina na união trinitária. Nesse estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e não deve mais passar através das criaturas para chegar a Ele. A alma se sente já inundada pelo amor divino e se alegra completamente nele.

Queridos irmãos e irmãs, ao fim permanece a questão: esse santo, com a sua alta mística, com esse árduo caminho rumo ao cume da perfeição, tem algo a dizer também a nós, ao cristão normal, que vive nas circunstâncias desta vida de hoje, ou é um exemplo, um modelo somente para poucas almas eleitas que podem realmente iniciar essa via da purificação, da ascese mística? Para encontrar a resposta, devemos, antes de tudo, ter presente que a vida de São João da Cruz não foi um “voar sobre nuvens místicas”, mas foi uma vida muito dura, muito prática e concreta, seja como reformador da ordem, onde encontrou tantas oposições, seja como superior provincial, seja no cárcere de seus coirmãos, onde era exposto a insultos inacreditáveis e a maltratos físicos. Foi uma vida dura, mas exatamente nos meses passados nos cárceres ele escreveu uma das suas obras mais bonitas. E, assim, podemos compreender que o caminho com Cristo, o andar com Cristo, “a Via”, não é um peso a mais ao já suficientemente duro fardo da nossa vida, não é algo que tornaria mais pesado esse fardo, mas é algo completamente diferente, é uma luz, uma força, que nos ajuda a levar esse fardo. Se um homem carrega consigo um grande amor, esse amor lhe dá quase asas, e suporta mais facilmente todas as moléstias da vida, porque leva em si essa grande luz; isso é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a levar o fardo todo o dia. E a santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é exatamente essa “abertura”: abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer a Deus, porque exatamente na abertura à sua luz se encontra a força, se encontra a alegria dos remidos. Peçamos ao Senhor para que nos ajude a encontrar essa santidade, deixemo-nos amar por Deus, que é a vocação de nós todos e a verdadeira redenção. Obrigado.

 

Read Full Post »

O Papa Bento XVI dedicou a Catequese esta quarta-feira, 16, aSão João da Cruz, amigo espiritual da grande mística espanhola Teresa de Jesus, sobre a qual o Papa falou há duas semanas.

O Pontífice ressaltou o que é santidade, a partir do ensinamento do santo espanhol:

A santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é exatamente essa “abertura”: abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer de Deus, porque exatamente na abertura à sua luz se encontra a força, se encontra a alegria dos remidos. Peçamos ao Senhor para que nos ajude a encontrar essa santidade, deixemo-nos amar por Deus, que é a vocação de nós todos e a verdadeira redenção”.

São João da Cruz é Doutor da Igreja e chamado na tradição deDoctor mysticus, “Doutor místico”. Ele foi companheiro de Santa Teresa no árduo do processo de reforma da Ordem Carmelitana, que originou a família dos Carmelitanos Descalços, nos ramos feminino e masculino.

O Papa também recordou que o caminho com Cristo não representa um peso a mais ao já suficientemente fardo da vida:

“Não é algo que tornaria mais pesado esse fardo, mas é algo completamente diferente, é uma luz, uma força, que nos ajuda a levar esse fardo. Se um homem carrega consigo um grande amor, esse amor lhe dá quase asas, e suporta mais facilmente todas as moléstias da vida, porque leva em si essa grande luz; isso é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a levar o fardo todo o dia”.

O Santo Padre fez um resumo das quatro maiores obras so santo:Subida ao Monte CarmeloNoite escuraCântico espiritualChama viva de amor.

“No Cântico espiritual, São João apresenta o caminho de purificação da alma, isto é, a progressiva posse alegre de Deus, até que a alma passe a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A Chama viva de amor prossegue nessa perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade”, disse.

O célebre Cântico espiritual foi escrito, juntamente com outros poemas, durante o período em que o santo permaneceu aprisionado devido a injustas acusações. Sobre a Subida ao Monte Carmelo, o Bispo de Roma disse:

“Apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma. […] Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, colaborando com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para chegar à união com Deus deve ser total, inicia a partir da vida dos sentidos e prossegue naquela que se obtém por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade. […] O esforço humano, de fato, é incapaz sozinho de chegar até as raízes profundas das inclinações e dos hábitos cativos da pessoa: pode somente freá-los, mas não erradicá-los completamente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe à união de amor com Ele”.

Um resumo possível da doutrina de São João da Cruz, segundo Bento XVI, seria: “Todas as coisas criadas são nada em relação a Deus e nada tem valor fora d’Ele: por consequência, para chegar ao amor perfeito de Deus, todo outro amor deve configurar-se em Cristo ao amor divino”.

São João da Cruz

João da Cruz nasceu em 1542, no pequeno vilarejo de Fontiveros, próximo de Ávila, de Vecchia Castiglia, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Alvarez. Órfão de pai e de uma família muito pobre, devido às suas qualidades humanas e aos resultados nos estudos, foi admitido primeiro como enfermeiro no Hospital da Conceição e depois no Colégio dos Jesuítas aos dezoito anos. Ali estudou, por três anos, ciências humanas, retórica e línguas clássicas. Ao final da formação, ele tinha bem clara a sua vocação: a vida religiosa e, entre tantas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No verão de 1563, iniciou o noviciado junto aos Carmelitanos da cidade, assumindo o nome religioso de Matias. No ano seguinte, foi destinado à prestigiada Universidade de Salamanca, onde estudou por um triênio arte e filosofia. Em 1567, foi ordenado sacerdote e retornou a Medina del Campo para celebrar a sua Primeira Missa, circundado pelo afeto dos familiares. Exatamente alí aconteceu o primeiro encontro entre João e Teresa de Jesus, lenado-os a uma grande amizade e admiração recíproca.

João enfrentou com exemplar serenidade e paciência enormes sofrimentos. Morreu na noite entre 13 e 14 de dezembro de 1591, enquanto os coirmãos recitavam o Ofício matutino. Despediu-se deles dizendo: “Hoje vou cantar o Ofício no céu”. Os seus restos mortais foram transladados a Segóvia. Foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726.

A audiência

O encontro do Bispo de Roma com os fiéis reunidos na Sala Paulo VI aconteceu às 7h30 (horário de Brasília – 10h30 em Roma). O Papa continua uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja, no contexto de Catequeses dedicadas aos padres da Igreja e grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade média.

Na saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Papa salientou:

“Amados peregrinos de língua portuguesa: a todos saúdo cordialmente e recordo, com São João da Cruz, que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação a qual todo cristão é chamado. Por isso, exorto-vos a entrardes de modo sempre mais decidido no caminho de purificação do coração e da vida, para irdes ao encontro de Cristo. Somente nele jaz a verdadeira felicidade. Ide em paz!”.

Read Full Post »

Apresentamos as palavras que Bento XVI dirigiu hoje, ao meio-dia, aos peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a oração do Ângelus.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

Na liturgia deste domingo, continua a leitura do “Sermão da Montanha” de Jesus, que abrange os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus. Após as bem-aventuranças, que são seu programa, Jesus proclamou a nova Lei, sua Torá, como a chamam nossos irmãos judeus. De fato, o Messias, em sua vinda, traria também a revelação definitiva da Lei, e isto é precisamente o que Jesus diz: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir”. E, dirigindo-se aos seus discípulos, acrescenta: “Eu vos digo: se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17. 20). Mas em que consiste esta “plenitude” da Lei de Cristo e esta justiça “superior” que Ele exige?

Jesus explica isso através de uma série de antíteses entre mandamentos antigos e sua nova maneira de apresentá-los. Cada vez, começa dizendo: “Ouvistes que foi dito aos antigos…”, e depois afirma: “Mas eu vos digo…”. Por exemplo: “Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal” (Mateus 5, 21-22). E fala dessa forma em seis ocasiões. Esta forma de falar despertou uma forte impressão no meio do povo, que estava com medo, porque “eu vos digo” equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo “preenche” os mandamentos com o amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita n’Ele. E nós, pela fé em Cristo, podemos nos abrir à ação do Espírito Santo, que nos torna capazes de experimentar o amor divino. Por esta razão, todo preceito se torna verdadeiro como exigência de amor, e todos se reúnem em um mandamento único: ama a Deus com todo o coração e ama o teu próximo como a ti mesmo. “O amor é a plenitude da lei”, escreve São Paulo (Rm 13, 10). Diante desta exigência, por exemplo, o triste caso das quatro crianças ciganas que morreram na semana passada nos arredores desta cidade, em sua barraca queimada, exige que nos perguntemos se uma sociedade mais solidária e fraterna, mais coerente no amor, ou seja, mais cristã, não teria podido evitar essa tragédia. E essa pergunta é válida para muitos outros eventos dolorosos, mais ou menos conhecidos, que ocorrem diariamente em nossas cidades e nossos países.

Queridos amigos: talvez não seja coincidência que a primeira grande pregação de Jesus seja chamada de “Sermão da Montanha”. Moisés subiu ao Monte Sinai para receber a Lei de Deus e levá-la ao povo escolhido. Jesus é o Filho de Deus que desceu do céu para nos levar ao céu, à altura de Deus, pelo caminho do amor. E mais ainda, Ele próprio é este caminho: tudo o que temos a fazer é segui-lo para viver a vontade de Deus e entrar no seu Reino, na vida eterna. Uma só criatura já alcançou o topo da montanha: a Virgem Maria. Graças à união com Jesus, sua justiça foi perfeita: Por esta razão, nós a invocamos como Speculum iustitiae [Espelho de Justiça, N. da T.]. Confiemo-nos a Ela para que guie os nossos passos na fidelidade à Lei de Cristo.

Fonte: Zenit

Read Full Post »

Queridos irmãos e irmãs,

hoje, desejo falar-vos de São Pedro Kanis, Canísio na forma latinizada do seu sobrenome, uma figura muito importante no século XVI católico. Nasceu em 8 de maio de 1521 em Nimega, na Holanda. Seu pai era prefeito da cidade. Enquanto era estudante na Universidade de Colônia, conviveu com os monges cistercienses de Santa Bárbara, um centro propulsor de vida católica, e com outros homens piedosos que cultivavam a espiritualidade da assim chamada devotio moderna.

Entrou na Companhia de Jesus em 8 de maio de 1543 em Magonza (Renânia – Palatinato), após ter participado de um curso de exercícios espirituais sob a guia do Beato Pierre Favre, Petrus Faber, um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola. Ordenado sacerdote em junho de 1546, em Colônia, já no ano seguinte, como teólogo do Bispo de Augusta, o Cardeal Otto Truchsess von Waldburg, esteve presente no Concílio de Trento, no qual colaborou com dois coirmãos, Diego Laínez e Alfonso Salmerón.

Em 1548, Santo Inácio lhe fez completar, em Roma, a formação espiritual e enviou-o, depois, ao Colégio de Messina, para dedicar-se a humildes serviços domésticos. Obteve, em Bolonha, o doutorado em Teologia, em 4 de outubro de 1549, e foi destinado por Santo Inácio ao apostolado na Alemanha.

Em 2 de setembro daquele ano, o ’49, visitou o Papa Paulo III em Castel Gandolfo e, depois, dirigiu-se à Basílica de São Pedro para rezar. Ali implorou o auxílio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, para que dessem eficácia permanente à Bênção Apostólica, devido à sua nova missão.

No seu diário, anotou algumas palavras desta oração: Diz: “Lá eu senti que uma grande consolação e a presença da graça me eram concedidas por meio de tais intercessões [Pedro e Paulo]. Esses confirmavam a minha missão na Alemanha e pareciam transmitir-me, como apóstolo na Alemanha, o apoio de sua benevolência. Tu conheces, Senhor, de quantos modos e quantas vezes, naquele mesmo dia, me tendes confiado a Alemanha, para a qual, em seguida, teria continuado a seu solícito, para a qual teria desejado viver e morrer”.

Devemos ter presente que nos encontramos no tempo da Reforma luterana, no momento em que a fé católica, nos Países de língua germânica, diante do fascínio da Reforma, parecia apagar-se. Era uma missão quase impossível aquela de Canísio, encarregado de revitalizar, de renovar a fé católica nos Países germânicos. Era possível somente na força da oração. Era possível somente através do centro, isto é, de uma profunda amizade pessoal com Jesus Cristo; amizade com Cristo no seu corpo, a Chiesa, que é alimentada na Eucaristia, Sua presença real.

Seguindo a missão recebida de Inácio e de Papa Paulo III, Canísio partiu para a Alemanha, e partiu primeiramente para o Ducato da Baviera, que, por muitos anos, foi lugar do seu ministério. Como decano, reitor e vice-chanceler da Universidade de Ingolstadt, cuidou da vida acadêmica do Instituto e da reforma religiosa e moral do povo.

Em Vienna, onde, por breve tempo, foi administrador da Diocese, desempenhou o ministério pastoral nos hospitais e nos cárceres, tanto na cidade quanto na campanha, e preparou a publicação do seu Catecismo. Em 1556, fundou o Colégio de Praga e, até 1569, foi o primeiro superior da província jesuíta da Alemanha superior.

Nesse ofício, estabeleceu nos Países germânicos uma grande rede de comunidades da sua Ordem, especialmente de Colégios, que foram pontos de partida para a reforma católica, para a renovação da fé católica. Naquele tempo, participou também do colóquio de Worms, com os dirigentes protestantes, entre os quais Filippo Melantone (1557); desempenhou a função de Núncio pontifício na Polônia (1558); participou das duas Diete di Augusta (1559 e 1565); acompanhou o Cardeal Stanislao Hozjusz, legado do Papa Pio IV junto ao Imperador Ferdinando (1560); interveio na Sessão Final do Concílio de Trento, onde falou sobre a questão da Comunhão sob as duas espécies e do Índice dos livres proibidos (1562).

Em 1580 se retirou em Friburgo in Suíça, tudo dedicado a pregação e a composição de sua obra, e lá morreu em 21 de dezembro de 1597. Beatificado pelo beato Pio IX em 1864, foi proclamado em 1897 segundo Apóstolo da Alemanha pelo Papa Leão XIII, e pelo Papa Pio XI canonizado e proclamado doutor da Igreja em 1925.

São Pedro Canísio transcorreu boa parte de sua vida em contato com as pessoas socialmente mais importantes de seu tempo e exerceu uma influência especial com os seus escritos. Foi editor das obras completas de Cirílo da Alexandria e de São Leão Magno, das Letras de São Jerônimo e das Orações de São Nicolau da Fluë. Publicou livros de devoção em várias línguas, as biografias de alguns Santos escritores e muitos textos de homilias. Mas os seus escritos mais difundidos foram os cres Catecismos compostos entre 1555 e 1558.

O primeiro Catecismo era destinado aos estudantes podiam compreender noções elementares de teologia; o segundo aos garotos do povo para uma primeira instrução religiosa; o terceiro aos rapazes com uma formação escolar em nivel médio e superior. A doutrina catolica era exposta com perguntas e respostas breves em termos biblicos, com muita clareza e sem criar polêmicas.

Somente no tempo da sua vida foram feitas 200 edições desse mesmo Catecismo! E centenas de edições foram feitas até 1900. Assim, na Alemanhã, ainda na geração do meu pai, as pessoas chamava, o Catecismo simplesmente de “O Canísio”: é realmente o catecismo para os séculos, formou a fé de pessoas pelos séculos.

Esta é uma característica de São Pedro Canísio: saber compor harmoniozamente a fidelidade aos princípios dogmáticos com o respeito devido a cada pessoa.  São Canísio distinguiu a apostologia consciente, pela fé, pela perda da fé inocente das circunstâncias. E declarou, confrontando Roma, que a maior parte dos alemães que passaram para o Protestantismo não tinham culpa.

Em um momento histórico de fortes contrastes confessionais, evitava – esta é uma coisa extraordinária – a amargura e a retórica do ódio – coisa rara como eu disse naqueles tempos de discussões entre os crostãos, –  e mirava somente a apresentação das raízes espirituais e a revitalização da fé na Igreja. Isso serviu para o conhecimento vasto e penetrante da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja: o mesmo conhecimento que sustentou o seu pessoal relacionamento com Deus e servidão espiritaus que derivava da devoção moderna e da mística renânia.

É caracterísca da espiritualidade de São Canísio uma profunda amizade pessoal com Jesus. Escreve, por exemplo, em 4 de setembro de 1549 no seu diário, falando com o Senhor: “Tu, em fim, como se me abrisse o coração do Santíssimo Corpo, que me parecia ver diante de mim, me ordenou beber dessa fonte, convidando-me, para assim dizer, a atingir as águas da minha salvação das tuas fontes, oh meu Salvador”.

E depois vê que o Senhor lhe dá uma veste com três partes que se chama paz, amor e preceverança, assim, Canísio desenvolveu a sua obra de renovação do catecismo. Esta sua amizade com Jesus – que é o centra da sua personalidade – nutriada pelo amor da Bíblia, do Sacramento, do Amor dos Padres, esta amizade era claramente unida com a sensibilidade de ser na Igreja um continuador da missão dos apóstolos. E isso nos recorda que cada autentico evangelizador é sempre um instrumento unido, e por isso mesmo fecundo, com Jesus e com a Igreja.

Pela amizade com Jesus, São Pedro Canísio foi formado num ambiente espiritual da Cartuxa de Colônia, na qual esteve em estreito contato com dois cartuxos místicos: Johann Lansperger, latiziando em Lanspergius, e Nicolas van Hesche, latinizado em Eschius. Sucessivamente aprofunda a experiência desta amizade, familiaritas stupenda nimis, com a contemplação dos mistérios da vida de Jesus, que ocupam grande parte nos Exercícios Espirituaus de Santo Inácio.

A sua intensa devoção ao Coração do Senhor, que culmonou na consagração ao ministério apostólico na Basílica Vaticana, encontra aqui o seu fundamento.

Na espiritualidade cristocentrica de São Pedro Canísio se enraíza um profundo conhecimento:  não pode a alma exortar da própria perfeição quem não pratica todos os dias a oração, a oração mental, meio ordinário que permite ao discípulo de Jesus viver a intimidade com o Mestre divino.

Por isso, nos textos destinados à educação  do povo, o nosso Santo insiste na importância da Liturgia com os seus comentários nos Evangelhos, nas festas, nos ritos da santa Missa e nos outros Sacramentos, mas ao mesmo tempo, toma cuidado ao mostrar aos fiéis a necessidade e a beleza que a oração pessoal cotidiana para que permeiem a participação ao culto público da Igreja.

Se trata de uma exortação e de um método que conservam intáctos os seus valores, especialmente depois que  foram replicados com autoridade do Concílio Vaticano II  Na Constituição Sacrosanctum Concilium: a vida cristã não cresce se não é alimentada pela participação da Liturgia, de modo particular da santa Missa dominical, e da oração pessoal cotidiana, do contato pesspal com Deus.

Em meio às milhares e atividades de multiplos estímulos que nos circundam, é necessário encontrar cada dia os momentos de recolhimento diante do Senhor para escutar e falar com Ele.

Ao mesmo tempo, é sempre atual e de permanente valor o exemplo que São Pedro Canísio nos deixou, não somente nas suas obras, mas sobretudo com a sua vida.

Ele ensina com clareza que o ministério apostólico é incisivo e produz frutos de salvação nos corações somente se o pregador é testemunha pessoal de Jesus e instrumento a Sua disposição, a Ele estreitamente unido pela fé no seu Evangelho e na sua Igreja, de uma vida moralmente coerente e de uma oração incessante  como o amor. E isso vale para cada cristão que deseja viver com empenho e fidelidade a sua adesão a Cristo. Obrigado.

 

Read Full Post »

Queridos irmãos e irmãs!

No Evangelho deste domingo, o Senhor Jesus diz aos seus discípulos: “Vós sois o sal da terra. […] Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14). Mediante essas imagens ricas de significado, Ele deseja transmitir a esses o sentido da sua missão e do seu testemunho. O sal, na cultura médio-oriental, evoca diversos valores, como a aliança, a solidariedade, a vida e a sabedoria. A luz é a primeira obra de Deus Criador e é fonte da vida; a própria Palavra de Deus é comparada à luz, como proclama o salmista: “Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, luz para o meu caminho” (Sal 119,105). E ainda na Liturgia de hoje o profeta Isaías diz: “Se deres do teu pão ao faminto, se alimentares os pobres, tua luz levantar-se-á na escuridão, e tua noite resplandecerá como o dia pleno” (58,10). A sabedoria incorpora em si os efeitos benéficos do sal e da luz: de fato, os discípulos do Senhor são chamados a dar novo “sabor” ao mundo, e a preservá-lo da corrupção com a sabedoria de Deus, que resplandece plenamente no rosto do Filho, porque Ele é a “verdadeira luz que ilumina todo o homem” (Jo 1,9). Unidos a Ele, os cristãos podem difundir em meio às trevas da indiferença e do egoísmo a luz do amor de Deus, verdadeira sabedoria que dá significado à existência e ao agir dos homens.

No próximo 11 de fevereiro, memória da Beata Virgem de Lourdes, celebraremos o Dia Mundial do Doente. Essa é ocasião propícia para refletir, para rezar e para aumentar a sensibilidade das comunidades eclesiais e da sociedade civil com relação aos irmãos e às irmãs doentes. Na Mensagem para este Dia, inspirada em uma expressão da Primeira Carta de Pedro: “Por suas chagas fostes curados” (2,24), convido todos a contemplar Jesus, o Filho de Deus, o qual sofreu, morreu, mas ressuscitou. Deus se opõe radicalmente à prepotência do mal. O Senhor cuida do homem em todas as situações, partilha os sofrimentos e abre o coração à esperança. Exorto, portanto, todos os agentes de saúde a reconhecerem no doente não somente um corpo marcado pela fragilidade, mas, antes de tudo, uma pessoa à qual dar toda a solidariedade e oferecer respostas adequadas e competentes. Neste contexto, recordo, além disso, que hoje acontece na Itália a “Jornada pela vida”. Desejo que todos se comprometam a fazer crescer a cultura da vida, para colocar no centro, em toda circunstância, o valor do ser humano. Segundo a fé e a razão, a dignidade da pessoa é irredutível às suas faculdades ou capacidade que pode manifestar e, portanto, não diminui quando a pessoa mesma está debilitada, inválida e necessitada de auxílio.

Queridos irmãos e irmãs, invoquemos a materna intercessão da Virgem Maria, a fim de que os pais, os avós, os professores, os sacerdotes e quantos estão empenhados na educação possam formar as jovens gerações na sabedoria do coração, para que alcancem a plenitude da vida.

Read Full Post »

Older Posts »